As 7 Mudanças que Vão Transformar a Sua Contabilidade
Na artigo anterior, alertámos-vos para a "revolução silenciosa" das IFRS para PME. Hoje, vamos ao que realmente interessa: quais são exatamente as mudanças que vão afetar o vosso dia-a-dia profissional? Preparem-se, porque algumas destas alterações vão obrigar-vos a repensar completamente a forma como trabalham.

1. A Grande Revolução da Receita (Seção 23)
Esta é, sem dúvida, a mudança mais disruptiva. Esqueçam tudo o que sabem sobre a IAS 18 e IAS 11. A nova Seção 23 baseia-se no modelo de cinco etapas da IFRS 15, embora com simplificações para PME.
O que muda na prática? Vão ter de analisar cada contrato com clientes e identificar as obrigações de desempenho separadas. Aquele contrato de venda de equipamento com manutenção incluída? Agora pode ter de ser dividido em duas componentes distintas. A receita de um projeto de construção que antes reconheciam linearmente? Pode ter de ser reconhecida de forma completamente diferente.
Impacto real: Empresas de construção, tecnologia, consultoria e qualquer negócio com contratos complexos vão sentir este impacto de forma significativa.
2. Instrumentos Financeiros: Fusão e Confusão (Nova Seção 11)
As antigas Seções 11 e 12 foram fundidas numa só, e já não podem aplicar a familiar IAS 39. A nova seção alinha-se com os princípios da IFRS 9, mas mantém o modelo de perda incorrida (uma simplificação importante).
O que muda na prática? Vão ter de reclassificar todos os instrumentos financeiros segundo os novos critérios. Aqueles investimentos que classificavam de uma forma podem ter de ser reclassificados. E atenção: há novos requisitos de divulgação que vão exigir mais informação nas notas às demonstrações financeiras.
3. A Centralização na Aplicação do Valor Justo (Seção 12)
Criaram uma seção inteiramente nova para centralizar tudo sobre mensuração do valor justo. Baseada na IFRS 13, esta seção reúne num só local todos os requisitos que antes estavam espalhados pela norma.
O que muda na prática? Finalmente, um guia único e claro para todas as situações de valor justo. Isto vai simplificar a vossa vida, mas também exige que dominem bem estes conceitos, porque agora não há desculpas para inconsistências.
4. Consolidação com Novos Critérios (Seção 9)
A definição de controlo foi alinhada com a IFRS 10. Agora, o foco está no poder, na exposição a retornos variáveis e na capacidade de usar esse poder para afetar os retornos.
O que muda na prática? Algumas empresas podem descobrir que afinal controlam entidades que pensavam não controlar, ou vice-versa. Isto pode alterar completamente o perímetro de consolidação e, consequentemente, as demonstrações financeiras consolidadas.
5. Combinações de Negócios Modernizadas (Seção 19)
Alinhamento com a IFRS 3 atual, incluindo nova definição de negócio, contrapartida contingente ao valor justo e custos de aquisição reconhecidos como despesa.
O que muda na prática? Se a vossa empresa faz aquisições, preparem-se para mudanças significativas. Os custos de aquisição que antes capitalizavam agora vão diretamente para resultados. E a contrapartida contingente? Tem de ser mensurada ao valor justo desde o início.
6. Fluxos de Caixa com Mais Transparência (Seção 7)
Novos requisitos de divulgação, incluindo reconciliação das alterações nos passivos de financiamento e informações sobre acordos de financiamento de fornecedores.
O que muda na prática? Mais trabalho na preparação das demonstrações financeiras, mas também mais transparência para os utilizadores. Os bancos e investidores vão ter uma visão muito mais clara da vossa estrutura de financiamento.
7. Conceitos Fundamentais Reforçados (Seção 2)
Novos conceitos sobre mensuração, apresentação e divulgação, com clarificação de conceitos como prudência, stewardship e substância sobre a forma.
O que muda na prática? Uma base teórica mais sólida para todas as decisões contabilísticas. Isto pode parecer abstrato, mas vai influenciar a forma como interpretam e aplicam todas as outras seções.
O Que Não Mudou (E Porquê)
É igualmente importante saber o que o IASB decidiu NÃO alterar:
•Locações (IFRS 16): Considerada demasiado complexa para PME nesta fase
•Criptomoedas: Baixa prevalência entre PME
•Contas de diferimento regulatório: Aguarda nova norma das IFRS completas
A Realidade Nua e Crua
Estas mudanças não são opcionais. Não são sugestões. São obrigatórias a partir de 1 de janeiro de 2027. E algumas delas - especialmente a receita e os instrumentos financeiros - vão exigir uma revisão completa dos vossos processos, sistemas e conhecimentos.
Mas aqui está a boa notícia: quem se preparar adequadamente vai ter uma vantagem competitiva enorme. Os vossos clientes vão precisar de ajuda, e quem dominar estas alterações primeiro será visto como o especialista de referência.
O Que Vem a Seguir?
Na próxima semana, vamos apresentar-vos algo que nenhum outro blogue está a oferecer: um plano de ação concreto, passo a passo, para preparar as vossas empresas para estas mudanças. Não percam, porque o tempo está a esgotar-se mais rapidamente do que imaginam.
A transformação já começou. A questão é: vão estar na linha da frente ou vão ficar para trás?
Bibliografia:
- IFRS Foundation. (2025). IFRS for SMEs Accounting Standard Third Edition. Disponível em: https://www.ifrs.org/content/dam/ifrs/publications/ifrs-for-smes/english/2025/ifrs-for-smes.pdf
- PwC. (2025). IASB issues third edition of the IFRS for SMEs. Disponível em: https://viewpoint.pwc.com/dt/gx/en/pwc/in_briefs/in_briefs_INT/in_briefs_INT/iasb-issues.htmlDeloitte. (2025).
- IASB issues third version of the IFRS for SMEs. Disponível em: https://www.iasplus.com/en/news/2025/02/third-ifrs-for-smes
- EY. (2025). IASB issues third edition of IFRS for SMEs accounting standard. Disponível em: https://www.ey.com/content/dam/ey-unified-site/ey-com/en-gl/technical/ifrs-technical-resources/documents/en-gl-iasb-issues-third-edition-of-ifrs-for-smes-accounting-standard-03-